Enologia e o Repertório

Provavelmente você vai se identificar com essa situação. Se você não tem algum conhecido que faça isso (ou se você mesmo não fizer), com certeza já viu alguém fazendo em algum restaurante por aí.

O rapaz escolhe um vinho, pede ao garçom que vai até a adega e volta com a garrafa.
O vinho é aberto e a rolha entregue ao rapaz para que ele cheire e depois é servida uma pequena quantidade do vinho dentro da taça. Em seguida, a taça é chacoalhada levemente e depois degustada. Se estiver tudo ok, o rapaz dá o sinal para que o garçom sirva todos na mesa.

Lógico, os enólogos (Enologia é a ciência que estuda tudo o que está relacionado com a produção e conservação do vinho, desde o plantio até a venda) que me desculpem (posso ter descrito alguma coisa errada nesse processo), mas salvo raros casos, as pessoas que fazem todo esse ritual normalmente não fazem ideia do que estão fazendo. Elas fazem porque é quase que um código. Dessa forma estão mostrando (mesmo que ninguém saiba que é mentira): “Sou praticamente um enólogo. Olha como eu entendo de vinhos”.

Esse exemplo é o mesmo que o Gustavo Piqueira usa (de forma muito mais incrível) em seu livro “Morte aos Papagaios” para falar de uma coisa muito, mas muito recorrente no mundo do design, da propaganda e da comunicação: repertório.

Nesse momento você pode estar pensando: “o que uma coisa tem a ver com a outra?”.

O Gustavo cita uma coisa muito importante que pra mim foi quase que um tapa no meio da orelha sobre muito do que eu pensava sobre a importância de um repertório vasto. Vai parecer meio óbvio quando contar a você o que é, mas no dia a dia nos esquecemos um pouco disso.

“Para se entender realmente de alguma coisa, seja ela qual for, o único pré-requisito é gostar dela”.

Parece simples, não?

Então, se voltarmos ao exemplo que comentei no início do texto. Só porque o rapaz conhece os procedimentos (o que fazer e o que dizer ao garçom) de uma degustação de vinhos, isso faz dele um bom entendedor de vinhos? Pode ser que ele tenha aprendido tudo em uma noite só para impressionar alguém e no fundo nem goste da bebida, certo?

Agora, guarde isso em mente e vamos entrar no que realmente interessa. Desde o começo das nossas carreiras (e praticamente ao longo dela inteira), somos ensinados a enriquecer nosso repertório através de filmes, fotografias, museus, quadros, livros e o que mais você puder imaginar. Depois que li esse trecho dentro do livro do Piqueira, uma pergunta me veio à cabeça: “Ir em um museu somente pelo ato de ir (sendo que nem sou um grande fã de museus) vai enriquecer meu repertório de que forma?”

Supondo que você conseguiu ver obras do Picasso por exemplo. Ir ao museu, sentar na frente de um dos quadros dele e esperar que isso vai aumentar seu repertório automaticamente é uma grande bobagem, a não ser que você realmente goste de museus e de Picasso.

Por isso, de nada adianta sair vendo 300 filmes que você não tem a mínima vontade e ler 4 livros que você considera extremamente entediantes por mês, sendo que na hora de executar um projeto você não consegue traduzir nenhum desses inúmeros dados para suprir às necessidades do seu cliente.

A chave aqui é nos aprofundarmos nas coisas que realmente nos interessam (e que automaticamente nos transformam) e não fazer tudo no piloto automático. O famoso “tô fazendo porque tem que fazer” precisa deixar de existir e dar lugar ao “Caramba, isso é realmente importante pra mim”.

Assim a gente sai um pouco do mero acúmulo de dados e avançamos um pouquinho mais nessa busca por uma carreira (e uma vida) mais criativa, mais divertida e mais equilibrada!

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