Ô, mas que surpresa!

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Meu avô, o sr. Giorgio, italiano de nascença, foi acolhido pela cidade de São Paulo onde conheceu a dona Olympia, minha avó. E foi lá que construíram sua família (e que futuramente se transformou na minha família). Juntos, conviveram por 63 longos anos de casamento.

O seu Jorge (como aqui acabou ficando conhecido, mas sinceramente ele nunca gostou dessa “abrasileirada” que demos no nome dele), trabalhou com linotipia no Jornal do Comércio de São Paulo por muitos anos, além de um período trabalhando com meu bisavô em um armazém.

Em 1986, ano que nasci, meus avós já moravam em Atibaia e foi lá que passei boa parte da minha infância, correndo e brincando pela horta e casa que o Giorgio e a Olympia cuidavam com tanto carinho. Sempre que chegávamos, meu avô fazia questão de marcar a minha altura e a do meu irmão na garagem e comparar com a última vez que estivemos por lá. Era sempre uma emoção saber o quanto eu cresci.

Depois do jantar, na hora do Rá-tim-bum, minha avó sempre dava um doce para cada um, enquanto meu avô chamava nossa atenção por estragar a grama onde descemos com caixas papelão mais cedo.

Quando fiquei adolescente, acabei me afastando um pouco de ambos infelizmente. Isso mudou quando conheci minha futura esposa, que me fez entender o valor de ter os avós por perto.

Depois que me formei, lembro até hoje do dia em que contei ao meu avô que trabalhava com design, mais especificamente com diagramação (já que meu primeiro emprego foi em um jornal). Os olhinhos dele brilharam e me fez oito mil perguntas sobre como eu fazia a criação das páginas. Claro, as coisas haviam mudado absurdamente desde então, mas na cabeça dele, trabalhávamos na mesma profissão. Naquele breve momento, nos tornamos iguais.

Quando me casei, tive a incrível oportunidade de visitar Florença, sua cidade natal, na Itália. Coloquei na minha cabeça que não iria embora sem visitar a casa onde viveu. E consegui. Melhor que isso, foi mostrar todas as fotos a ele na volta da viagem e me impressionar com o fato de que um senhor de mais de 90 anos ainda se lembrava dos nomes das ruas, dos monumentos, das pontes e das praças.

Agora, a lembrança que eu vou sempre carregar comigo é a de que como a maioria dos casais de idade, meus avós sempre gostaram de saber com uma breve antecedência sobre possíveis visitas. Meu avô, com seu sotaque característico, mesmo sabendo da chegada da família, soltava um largo “Ô, mas que surpresa!”.

Quando abria o portão, ele se abaixava para dar um beijo na minha testa e na do meu irmão. E durante anos foi assim. Quando crescemos, passamos a fazer o contrário: nós nos abaixávamos para ele vir dar o beijo na testa. Sinceramente fazia até mais sentido, pensando agora, pois querendo ou não, era uma forma de fazermos reverência para toda sua sabedoria.

E é com essa lembrança que eu gosto de ficar.

Pode ter certeza de que quando estiver com meus bons 60 anos de casado e recebendo meus filhos em casa, vou beijá-los na testa e dizer: “Era assim que o bisavô de vocês fazia”.

Vô, sua partida foi uma ingrata surpresa, mas não é surpresa nenhuma que suas memórias vão estar sempre vivas com a gente, onde quer que o senhor esteja.

Esse texto é uma breve maneira de dizer o quanto vou sentir sua falta.

Obrigado por tudo, mas principalmente obrigado por me receber nesse mundo
como seu neto.

Marcos.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Chell disse:

    Aí que lindo Singula. Certeza que seu vovô ficou feliz. Meus sentimentos.

    1. singulano disse:

      Brigadão Chell ❤

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