Palavras vazias

Eu odeio gratidão. Não o sentimento, mas a palavra em si.
Calma, que vamos chegar lá.

Muita tela, pouca interação.


Recentemente em uma das atualizações do meu celular, um aplicativo de “Bem-Estar Digital” apareceu na lista. Basicamente ele mede o tempo que você passa em cada um dos aplicativos do celular e sugere medidas para que você faça um detox de tempos em tempos.

A ideia aqui não é fazer propaganda do aplicativo, mas desde que passei a utilizá-lo descobri que passo em média 2h20 no celular durante a semana. Aos finais de semana, esse número sobe para 3h. São 70 horas por mês e 840 horas por ano na frente dessa telinha.

O que quero dizer com isso (e que não é nenhuma novidade) é que todos nós estamos cada vez mais conectados. Alguns estudos já apontam que o uso do celular ativa a mesma área do cérebro que é acionada quando usamos algum tipo de droga como heroína ou mesmo álcool. Ou seja, o uso de celular tornou-se um vício.

Com isso, estamos passando por uma perda gigantesca na habilidade de nos comunicar frente a frente com outra pessoa. Algo que podemos chamar de empobrecimento subjetivo. O simples fato de estar em uma reunião de amigos ou mesmo de trabalho e ver uma notificação pular na tela faz com que você perca totalmente a concentração. Você pára de escutar o que está sendo dito e passa a pensar no que está perdendo dentro das redes (que também é chamado de FOMO – Fear of Missing Out ou em tradução livre: medo de ficar de fora).

A partir do momento que paramos de escutar, paramos de agir e com isso coisas que consideramos tão essenciais (e que pregamos tanto dentro da internet) somem, tais como: empatia, diálogo, ponderação e – por que não? – gratidão.

Elas acabam se transformando em palavras que considero vazias.

Utilizamos todas elas, dentro de um comportamento previsível. Afinal, não dá pra demonstrar qualquer tipo de fraqueza dentro da internet, certo? Todos somos gratos, empáticos, estamos dispostos a ouvir e a ponderar.

Desde que seja atrás de um teclado.
Por isso, meu ódio em relação à essas palavras.

Qual a solução?

Eu poderia terminar esse texto falando que precisamos nos desconectar da tela e nos conectar mais uns com os outros.

Sim. É um pouco isso mesmo, mas é muito mais que isso.

A tecnologia está ai. Não dá pra negar e muito menos impedir o seu avanço. Contudo, o que acontece é que precisamos tomar posse de tudo isso e não deixar que isso tudo nos use.

Dá sim, pra conferir as notificações do celular. Dá também pra trazer de volta os significados das palavras que citei acima. As 2h20 que fico no celular por dia, podem se transformar em 30 minutos e no tempo restante, posso fazer o que a humanidade faz de melhor: conviver. Afinal, porque você acha que sempre andamos em bando?

Tudo na vida é questão de equilíbrio, mas talvez estamos pendendo mais pra um lado do que para o outro.

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Texto inspirado na obra “Desabilidade”, de Roberto Parmeggiani e nas conversas com a grande amiga Joyce Maíra.

Agradecimento mais que especial para a esposa Ana Cláudia Lima pela revisão do texto e sempre com dicas pra me ajudar a melhorar a escrita. ❤

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